sugarcarnefieldsforever

Por Mateus Borges
(@mateusb)

“O Último Poema de Amor”

Minha velha,
eu espero que a minha voz
e as minhas palavras junto às suas
se encaixem como querem
nas fendas entre as nossas rugas
e sejam tão além dessa vida
quanto os nossos corpos são presos
eu te juro, e não prometo
que promessas são para o futuro

Minha querida,
vai e calha um pouco de mim
para fazer alguns galhos
quando a última árvore solta cair
e se não tiver mais sombra
busque na minha memória o gosto de tarde
e sonha todas as flores num paiol
mas tu se encontra, que não há coisa que se esconda
para eu deixar você se sentir só

Sou uma velha e inconstante massa de poeira
flutuando e me debatendo: rearranjando meu corpo
de qualquer jeito que eu possa
para me sentir vivo

Eu vou, Pilar,
mas prometo que vai ser a única vez
que não te levo comigo

"Quando a Outra Semana Chegou"

Quando a outra semana chegou
assobiaram acima dos postes
uns dois pássaros pinceis
bicos do tamanho dum punho
fechado à palma como quem diz
“Carpa esse voo!”

Quando a outra semana chegou
as telhas se enviesaram
agora as gotas de minha chuva
como a casa de minha casa
e o céu de meu sobre-teto
caem vergadas em sombra
pingando morosamente
nem meio-fio, nem asfalto,
nem vai e nem vento
nem calça (nem nada)
uma nuvem de fazer veto.

Quando a outra semana chegou
a janela de meu quarto
foi como um quadrado perfeito
que o triângulo da hipotenusa
se acusou e disse
“sim, aceito, quero ser feio,
onde eu assino
meus catetos?”

Quando a outra semana chegou
nem tenro, nem bismarque, nem fera
meu jardim subiu pelas entradas
e pelos meus pés e unhas
…acho que sinto a idade da terra
em um lugar limítrofe
um casco de árvore,
minha impressão digital
segredo de braços abertos.

Quando a outra semana chegou
me perdi no calendário
procuro em algum lugar
estou entre fevereiro e março
bissexto ao teu zunido.

"aéreo 2"

Vamos todos embora no primeiro avião
que me levar de Pernambuco até Minas
pois qualquer sono justo não pede escalas
todo sono justo vai, pede, sonha e finda
as desculpas fracas são só para quem escreve

Eu consigo fazer casa em fios desencapados
na minha mala não resiste um seguro anti-queda
contém só os motivos para todas as caixas pretas
existirem logo abaixo dos vasos sanitários:
quem caga fica sentado a mil e um pés da terra

Se for em um cais abandonado, melhor ainda
estarei tonto tomando um pileque feito d’água
com todos os sujos marujos e barcos náufragos
antes mesmo que a chama na cauda se extinga
à toda queda se suscita cair, não mirar

E se explodir no ar, terei meu sonho como verdade
nunca mais tato, nunca mais voz, nunca mais hálito
só oitocentos e setenta e nove pedaços virando frase
serei o predicado no final do dedo da criança
que aponta e diz “Olha, papai, voar deixa rastro?”

visão de túnel

eu vou comer a sua casa
cada quarto, cada salão
cada espaço: entre-dentes

molhando minha garganta
com as suas duas piscinas;
e dormindo pelo sótão

fazendo em sua casa na árvore
eterna fuga privativa
para as minhas manhãs

cerceando-me em sua cerca
onde todos os invasores
serão prontamente atirados

subindo quase cansado
em seu telhado torto
apenas pela vista

armários e átrios e assoalhos
até que meu estômago
os faça em pedaços

no granito da sua cozinha;
seu piso em verniz;
as privadas e os fogões.

eu vou comer a sua casa
sendo o teu caso
resumido e insaciável

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