sugarcarnefieldsforever

Por Mateus Borges
(@mateusb)

"reforma"

Depredar um céu para que a caiba
sussurar uma palavra para que a defina
arreliar os sustos para que nos sustentem,
esse furdunço incondicional,
esses passos agitados,
esse amor mundo
e imundo e belo e Ela
que fez da solidão rota
que fez da rotina carnaval
que cabriolou meu sorriso
sem troco e sem desdobro
até que se canse de olhar e imagine
até que se canse de imaginar e sinta
até que se canse de sentir e se canse de cansar
pois nunca que se cansaria; nunca que eu me cansaria
dessa audácia de boca feito água
desse corpo feito tamborim, preenchendo os dias
preenchendo brumas d’alma e ruas de comércio
pontos de ônibus e meus mil espíritos inquietos
em uníssono, dizendo amor.

O Banquete (amor em partes)

A disparidade é que eu te amo. A ironia de meu peito é que eu não sei te amar.

Nunca fui versado nas formas válidas de um sentimento — suas mutações normais, suas rotinas calejadas, o jeito que ora dá e ora toma. Nunca soube achar, dentre eles, a medida certa para os meus gestos. Essa moeda que transforma algo interior em outro algo, dessa vez feito do mais sólido-concreto, dessa vez arbitrado pelo mundo real de pessoas reais.

Afinal, qual é o momento redondo de uma frase bonita? E o que se pode fazer com declarações e flores? Buquês e punhos são apenas transfigurações, então foda-se. Não sei o que fazer deles e nem quero. São objetos encantados, partes de um faz de fada, e minha aflição de lógica sempre veio por tentativa e erro. Uma matéria para fora dos confins reais. Intransmissível.  

É que o amor que sinto se afunda mais certo que qualquer abstração. Faz-me dentro de uma nova fragilidade. Palpita minha caixa torácica, revira-a num fliperama: jogo bichado numa sorte universal e absurda. É fora do meu controle. Fora da minha inalterável capacidade para entrega. E continua se repetindo e se repetindo, completo com os meus bigodes, barbas e cabelos

Tão cíclico que, à medida que deixo de ser criança, percebo como assimilei heroicamente o seguinte diálogo emocional:

“Vamos ser isso mais um pouco.”

“E daí quem sabe – quem sabe!— não terminemos sendo outra coisa.”

A repetição é a esperança de que uma hora paremos.  Velhice, muito provável, é perceber que isso não acontecerá.

(Percebo que amo com a aptidão de um atleta abaixo da média. Corro mais por vontade do que por impulso nato, mas corro firme e intento. O dom me passa muito perto, daí some.  Meu único real talento é a rotina, o pot-pourri de cardio e as dobras de riso das abdominais. Acordo cedo para poder rir do padre que benze primeira missa.)

Sim, eu amo. Mas como sei disso? Quando criança, minha mãe pediu que elencasse as pessoas que eu mais amava nessa vida. Primeiro lugar, segundo lugar, terceiro lugar… Imaginava as pessoas de minha família, a paquera do primário, o desenho animado da tevê, todos enfileirados com as suas medalhas, dádivas do meu gigantesco afeto.

Tudo de uma bobagem intensamente cruel.

Mas sim, ainda amo. “Amor ama amar amor”, soube. O êxtase fica parecendo uma repetição dentro de si mesmo. Fractais para sempre se refletindo e se expandindo infinitamente.

O “para sempre” é para o tempo. O “infinitamente” é para o espaço. Ou vice-versa. Ou misturado. Ou junto e sobreposto, ou trazendo os dois combinados para que eu faça com eles um bacanal de minha pura força. De minha tola raiva. De todos os mil elementos surrupiando a calma que o carinho deveria trazer. Traga como for ou como será, mas amar sempre é consequência. Sempre vem de algo e vai para algo. É como quem cisma.  

E cismei. Vejo traços comuns entre a escrita e o amor: ambos são traduções. Não existem sem algum elemento original, não existem sem a necessidade de se explicar uma emoção ou um estado que antes era intransponível. Podem ser anticlimáticos. Podem ser caprichosos. Podem ser feios e tortos, vindos de uma caneta BIC presa na gaveta, vindos de um coração enferrujado pelo elusivo egoísmo alheio. Podem pedir muito de você, assim como podem ser rasos, podendo apresentar bem na sua mão qualquer possível mistério ou interlúdio.

Ambos têm a sensação tremenda de se agarrar com força numa espinha. Assustam realidades e caducam espíritos. Mexem, emboloram, saúdam, relincham, exigem… São bichos vivos, quase. Caminham seus caminhos separados, enquanto vou buscando um lugar onde se encontrem e eu me perca: enfim menos humano, enfim um pouco mais satisfeito.

faz o mundo girar

as pessoas com nomes de cidade me enganam
joão é pessoa, mas teu coração não se paraíbas?
paulo tu é santo, mas teu coração não é em sampa?
e teresina, como és quieta se teus amores já têm um destino?
dizem que pedem corações enterrados em curvas de rios
mas eu insisto: quero ver o meu pisado pelos ambulantes.

"Personagem Gritando"

Ah, mas se você diz, eu acredito
quem não acreditaria quando se é assim
dito com a voz de quem dobrou a certeza
para que ela coubesse onde não se queria?

Ah, mas se você faz, eu aceito
justamente por ter um movimento perdido
parecendo uma coreografia de dedos
como um pedido de ajuda do universo
ou uma tremedeira de guerrilha.

Ah, mas se você vê, eu vejo
que eu não tenho dois olhos,
tenho apenas dois percevejos que me perseguem
debutantes e transeuntes
pragas de quem acreditava, bem,
em quase nada.

Ah, mas se você pensa, eu não
essa habilidade se perdeu com o tempo – e não se explica certo
se explica apenas como a envergadura de um cordel
passado feito presente por suas gerações
e umas poucas memórias póstumas.

Que passou de avô para filha para bisneta
para a prima para o irmão e a sua senhora
e que só leva de seu significado inicial
a lembrança de que alguém o tentou compor.

Disso eu desconheço,
feito um olho de nuca em quem nunca sabe o caminho.

Ah, mas se você age, eu não.
Como eu posso ter as mãos sinceras para um afeto
que eu não consigo imaginar ou temer?
Uma paciência capaz de sentir: dizer sim,
eu sei

Ah, mas se você vai, eu fico
— é que eu apenas não aprendi,
é que de tanto pensar, bem,
pensei.

Playground

Estaremos brincando de pega-pega
nas ruas cheias de Calcutá

Estaremos brincando de adoleta
com as nossas bochechas

Estaremos brincando de gato-mia
num canto do espaço
feito a farsa dos astronautas

Pularemos numa amarelinha
sem números ímpares

Estaremos brincando de esconde-esconde
na planície mais reta

Estaremos brincando de Stop
com os números de nossos CEPs
e as letras de nossos nomes

Estaremos lançando peões
com os fios de nossos cabelos

Estaremos num telefone sem fio
com plano ilimitado da Embratel

Vamos roubar bandeiras
de um continente conquistado
ao outro continente conquistado

Lançaremos as cinco-marias
e três virão de cima

Brincaremos de Marco Polo
no dilúvio

(até chegar o tempo
e minha voz ficar grossa
feito vida)

“O Último Poema de Amor”

Minha velha,
eu espero que a minha voz
e as minhas palavras junto às suas
se encaixem como querem
nas fendas entre as nossas rugas
e sejam tão além dessa vida
quanto os nossos corpos são presos
eu te juro, e não prometo
que promessas são para o futuro

Minha querida,
vai e calha um pouco de mim
para fazer alguns galhos
quando a última árvore solta cair
e se não tiver mais sombra
busque na minha memória o gosto de tarde
e sonha todas as flores num paiol
mas tu se encontra, que não há coisa que se esconda
para eu deixar você se sentir só

Sou uma velha e inconstante massa de poeira
flutuando e me debatendo: rearranjando meu corpo
de qualquer jeito que eu possa
para me sentir vivo

Eu vou, Pilar,
mas prometo que vai ser a única vez
que não te levo comigo

"Quando a Outra Semana Chegou"

Quando a outra semana chegou
assobiaram acima dos postes
uns dois pássaros pinceis
bicos do tamanho dum punho
fechado à palma como quem diz
“Carpa esse voo!”

Quando a outra semana chegou
as telhas se enviesaram
agora as gotas de minha chuva
como a casa de minha casa
e o céu de meu sobre-teto
caem vergadas em sombra
pingando morosamente
nem meio-fio, nem asfalto,
nem vai e nem vento
nem calça (nem nada)
uma nuvem de fazer veto.

Quando a outra semana chegou
a janela de meu quarto
foi como um quadrado perfeito
que o triângulo da hipotenusa
se acusou e disse
“sim, aceito, quero ser feio,
onde eu assino
meus catetos?”

Quando a outra semana chegou
nem tenro, nem bismarque, nem fera
meu jardim subiu pelas entradas
e pelos meus pés e unhas
…acho que sinto a idade da terra
em um lugar limítrofe
um casco de árvore,
minha impressão digital
segredo de braços abertos.

Quando a outra semana chegou
me perdi no calendário
procuro em algum lugar
estou entre fevereiro e março
bissexto ao teu zunido.

"aéreo 2"

Vamos todos embora no primeiro avião
que me levar de Pernambuco até Minas
pois qualquer sono justo não pede escalas
todo sono justo vai, pede, sonha e finda
as desculpas fracas são só para quem escreve

Eu consigo fazer casa em fios desencapados
na minha mala não resiste um seguro anti-queda
contém só os motivos para todas as caixas pretas
existirem logo abaixo dos vasos sanitários:
quem caga fica sentado a mil e um pés da terra

Se for em um cais abandonado, melhor ainda
estarei tonto tomando um pileque feito d’água
com todos os sujos marujos e barcos náufragos
antes mesmo que a chama na cauda se extinga
à toda queda se suscita cair, não mirar

E se explodir no ar, terei meu sonho como verdade
nunca mais tato, nunca mais voz, nunca mais hálito
só oitocentos e setenta e nove pedaços virando frase
serei o predicado no final do dedo da criança
que aponta e diz “Olha, papai, voar deixa rastro?”

visão de túnel

eu vou comer a sua casa
cada quarto, cada salão
cada espaço: entre-dentes

molhando minha garganta
com as suas duas piscinas;
e dormindo pelo sótão

fazendo em sua casa na árvore
eterna fuga privativa
para as minhas manhãs

cerceando-me em sua cerca
onde todos os invasores
serão prontamente atirados

subindo quase cansado
em seu telhado torto
apenas pela vista

armários e átrios e assoalhos
até que meu estômago
os faça em pedaços

no granito da sua cozinha;
seu piso em verniz;
as privadas e os fogões.

eu vou comer a sua casa
sendo o teu caso
resumido e insaciável

Walton Goggins e Timothy Olyphant tiram fotos promocionais para Justified. 

(por Dominic Pagone) 

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